Instituto Pensar - O que fazer quando a vítima é julgada em casos de ?Cultura do assédio?

O que fazer quando a vítima é julgada em casos de ?Cultura do assédio?

por: Renata Noiar


Advogada Isabela Del Monde ? Coordenadora do movimento #MeTooBrasil, a advogada Isabela Del Monde, para falar sobre a cultura do assédio e o ambiente corporativo ? Foto: Reprodução

Entrevista do Universa ouviu a coordenadora do movimento #MeTooBrasil, a advogada Isabela Del Monde, para falar sobre a cultura do assédio e o ambiente corporativo. Isabela conversou sobre o caso do humorista Marcius Melhem ?que repercutiu intensamente na sexta-feira (4) após reportagem da revista Piauí.

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Além de detalhes dos abusos que teriam sido cometidos pelo agora ex-diretor contra colegas de elenco ?especialmente a também humorista Dani Calabresa?, o texto abordou condutas da TV Globo no sentido de ter tentado mais acobertar Melhem do que, necessariamente, acolher as vítimas.

"No caso concreto da TV Globo, a impressão é que houve ali o reforço de um pacto: ?A gente não aborda isso, você [Melhem] sai desse jeito?? É como se tivesse sido feito mais um esforço de preservação da reputação dele do que algo que de fato amparasse e desse centralidade a essas vítimas.

Os detalhes revelados pela reportagem da revista Piauí causaram bastante comoção, sobretudo, em mulheres. Não apenas pelo volume de fontes ouvidas [43, ao todo] pela revista corroborando práticas de abuso, mas especialmente pela maneira como a TV Globo tratou o episódio.

Para Isabela a avaliação sobre a abordagem da empresa pode gerar o problema que vemos. Nesse caso, a Globo não conseguiu compreender que é possível você garantir tanto o acolhimento da vítima quanto um processo de investigação que também garante direitos do acusado. A empresa seguiu produzindo a falsa dicotomia do ou você acolhe a vítima, ou garante direitos em justa investigação do acusado ?quando, na realidade, é possível fazer as duas coisas. Há, inclusive, metodologias específicas para isso que, me parece, não foram utilizadas.

Para ela o que poderia ser feito nesse caso e não foi é que a Globo tomou como prática um antigo método de simplesmente afastar o acusado sem dar o devido acolhimento e encaminhamento para as vítimas. E a gente sabe que o grande problema nisso tudo é a cultura do estupro, uma cultura que não será transformada com o mero desligamento do agressor da vez: vão vir outros homens, outras pessoas com a mesma cultura de assédio, e isso vai continuar naquele espaço.

É preciso haver investimento em uma transformação cultural e em haver equidade no centro da cultura organizacional. É muito importante que o compliance das empresas, quando lida com essas questões, tenha em mente aspectos como as dinâmicas de poder que envolvem as partes ?de gênero, raça, hierarquia. É um grande equívoco tratar as partes como se fossem materialmente iguais, sendo que uma parte, em geral, tem mais poder que a outra seja porque é chefe, homem, branco, ou tudo isso junto.

Acesse a entrevista completa aqui.



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